Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito. Mas ao chegar à porta, sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contadas nas histórias de amor, que têm um começo, um meio e quando se findam, se não de maneira dolorosa, passam a refletir a fraqueza cotidiana das relações, tão efêmeras, onde se deixa morrer ali, naquele exato instante, o que de fato os uniu e se olham como estranhos, irreconhecíveis diante do descompasso de palavras não ditas e de situações não resolvidas.
Ele a olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe ao mesmo tempo, que não fosse e que não o deixasse ir, havia ainda nele a esperança, que tudo ainda era possível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza alva, real mas já se distanciando na penumbra do ambiente que era para ele com a luz da memória, que ainda guardava o dia em que haviam se conhecido.
Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde, lembraria não recordar cor naquele momento. Lembrar-se-ia ter dito que a ausência de cores, é completa em todos os instantes de separação.
Será que era sempre assim? Tantas coisas em comum e ao mesmo tempo, tanta dor acumulada, palavras não ditas, assuntos não resolvidos, como jogados para debaixo do tapete e o amor fortuíto e divino, que se agregava ao conjunto de tantas coisas que os uniram, passou a ser considerado poeira ao vento, em instantes, dissipado. A carência crescente do não dizer "te amo"mesmo que, baixinho, como um sussurrar de brisa suave, ainda estava ali.
Onde estavam os sentimentos de não poder esperar a hora de se encontrarem, onde corações pulsantes só faltavam sair pela boca, as comemorações de fins de tarde em domingos perdidos durante uma partida de futebol, onde eles comemoravam com pipoca e refrigerante e faziam amor deliciosamente vestidos com a camisa do time, onde estava o olhar mais atento, ao subir o fecho éclair do vestido de costas nuas que ele tanto amava e sentia-se elouquecido de vontade de tirá-lo antes mesmo de saírem para algum compromisso? As risadas ecoadas pela casa, sem maquiagem, vestindo a camisa dele dois números acima, lendo um livro em cima da cama ou as flores preferidas dela, que ele mandava cada vez que comemoravam o dia especial deles ou fora dos dias também?
O namoro intenso cada vez que ele vinha ou ela ia para encontrarem-se, mesmo com tanto a dizer, a vontade e a fome eram maiores do que as palavras. O que os fizeram sentir-se tão distantes a ponto de não darem mais certo juntos, as diferenças foram maiores que o amor? O sentimento de não cumprir o prometido diante do altar se arraigou em meio às discussões que sempre terminavam ou em mágoa ou em sexo, para depois mergulhar no mais absoluto silêncio.
"Tantas palavras, num breve sussurrar", onde foram parar os momentos daquela notícia da gravidez não prevista, mas comemorada de forma tão gostosa e intensa, olhares, gestos, sorrisos, abraços longos e beijos intermináveis antes de cada momento de ir ou chegar do trabalho?
Aonde foram parar aquele olhar cúmplice de "até mais tarde lá em casa" ou aquele beijo escondido no local de trabalho dele, para relembrar e manter viva a vontade de estarem juntos debaixo do cobertor ou em plena luz do alvorecer se entregarem , para deixar o gosto e o sabor do prazer que tinham um pelo outro?
Seus olhares se encontraram por um instante, trazendo-os de volta à realidade tão latente. Depois , se acariciaram ternamente e , finalmente, viram que não havia mais nada a dizer.
Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou de um só golpe, a porta atrás de si mesmo, numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela, mas o brusco movimento prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida e ele ficou ali, retido, sem poder mover-se do lugar, sentindo o pranto formar-se em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que aquela era a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, pensou que a tivesse encontrado.
Sabia também, que o primeiro passo que desse, colocaria em movimento sua máquina de viver. E ele teria, mesmo como um autômato, sair , andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto, ali estava, a poucos passos da sua forma feminina que não era nem uma outra, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com seus beijos e agasalhara nos instantes de amor de seus corpos.
Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço, perdida em seus próprios pensamentos. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde, na noite fria e escura, deixou que as lágrimas escorressem e em meio ao pranto tão contido diante dela, ele chorou, sem saber que ali, não tão distante, ela estava sentada no banco do carro, chorando toda a dor do amor que havia se findado.
Essas coisas de separacao sempre e sempre sao dolorosas. Nesses momentos temos que ter muita, muita forca e racionalidade. Mas sofrer amiga, 'e viver!
ResponderExcluirBeijos.